O ensino de PLE no Brasil: o que vem pela frente?

A língua portuguesa é a quinta mais falada em todo o mundo. É a língua oficial de oito países. Está presente em todos os continentes. E seu ensino, atualmente, enfrenta valente crescimento. Mas, por quais motivos?

É evidente que o crescimento econômico do Brasil é um forte aliado (e, diversas vezes, causa) do crescimento do ensino de PLE. As oportunidades de emprego, os acordos comerciais, o aumento das aparições do Brasil no cenário mundial e os avanços na área da ciência fazem com que o domínio da língua portuguesa seja uma necessidade. Somado a esses fatores, o interesse e a curiosidade por nossa cultura, literatura, música e, claro, língua encorajam o turismo e intercâmbios ao Brasil. Como dizem por aí, o Brasil está “bem na foto”. E, de quebra, demarca um bom momento para o ensino de português como língua estrangeira (PLE).

Como bem sabemos, nosso país está se preparando para ser anfitrião de dois megaeventos do esporte: a Copa do Mundo da Fifa, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016. Mais um bom motivo para enchermos os nossos aeroportos de estrangeiros. Mais um bom motivo para os olhos de todo o mundo voltarem-se para nós. Mais um bom motivo, principalmente, para o mundo aprender a falar a língua portuguesa.

Os números são animadores: com a Copa, segundo dados do Portal 2014, o Brasil receberá US$ 2 trilhões em investimentos, dará oportunidade para 7,7 mil pequenas empresas e espera aumentar em 30% o número de turistas estrangeiros até as Olimpíadas. No Rio de Janeiro, segundo dados do site Rio 2016, o maior evento esportivo do planeta contará com mais de 100 mil pessoas envolvidas na organização, incluindo 70 mil voluntários.

Assim, as razões e os principais impulsos que alavancarão o interesse pelo PLE são muitos. Mas, como nem tudo são rosas, caros leitores, ainda falta demanda de profissionais e incentivo do governo brasileiro nesta área. Ainda que tenhamos notícias, por exemplo, do aumento de 10,8% (entre 2006 e 2009) das matrículas em cursos de língua portuguesa nas universidades americanas, necessitamos de mais estímulos. A criação de institutos, centros da língua e da cultura de países lusófonos, materiais modernos, de qualidade e dentro do contexto da tecnologia podem ser pontos de partida, tal como realizamos com a série Bem-Vindo!, por meio de exercícios interativos em sua versão digital, e da Comunidade Fale Português, espaço on-line que reúne professores de português como língua estrangeira de todo o mundo.

O Brasil tem muito a oferecer. Nossa cultura tem muito que mostrar. E o mundo inteiro quer ver: ver e falar – comunicando-se na mesma língua. Serão alguns anos de abundante trabalho aos profissionais da área de ensino de línguas, mas o momento é favorável. É agora. O ensino de PLE respira novos ares. Vocês estão prontos?

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As grandes navegações culturais

Acreditamos que, desde as Grandes Navegações, um país de língua portuguesa não tem tido tanto sucesso em se expandir pelo mundo, levando seus ideais políticos, econômicos e culturais.

Não é segredo que o Brasil está na moda, e tudo que é relacionado às terras tupiniquins é notícia de interesse mundial. Isso já aconteceu no século passado, enquanto exportávamos nossos talentos musicais com a Bossa Nova e outros sons experimentais (como a aclamada banda Os Mutantes, lembrada até hoje em alguns países europeus). Porém, além do fato de as obras em língua portuguesa já sofrerem com a censura, naquela época o Brasil não contava com uma grande invenção, que é a internet, e arrisco dizer que esses foram os principais motivos para que o Brasil não tivesse se consolidado antes no cenário mundial.

Através da mídia virtual, hoje temos acesso quase livre a toda e qualquer informação de qualquer lugar do mundo. Não é novidade que até mesmo as personalidades famosas internacionais (com mais seguidores no Twitter) afirmam que cerca de 70% das mensagens recebidas são em português, vindas, mais especificamente, do Brasil.

Através da mídia virtual, hoje temos acesso quase livre a toda e qualquer informação de qualquer lugar do mundo. Não é novidade que até mesmo as personalidades famosas internacionais (com mais seguidores no Twitter) afirmam que cerca de 70% das mensagens recebidas são em português, vindas, mais especificamente, do Brasil.

Esse “sangue latino” conhecido pela forma passional com que tratamos todos os assuntos pode ser um dos motivos que nos impulsiona a querer nos fazer ouvidos internacionalmente, já que até mesmo a programação televisiva brasileira é por vezes um “Trending Topic” (assunto mais comentado no microblog). Mas não é segredo que nossa economia, que cresce ao mesmo tempo que países mais influentes estão sendo obrigados a colocar o pé no freio, faz com que os outros queiram nos ouvir, impulsionando também a procura pelo ensino de português.

Até mesmo o axé, ritmo baiano frenético que causa estranhamento em qualquer turista que chegue ao Brasil, foi levado ao Madison Square Garden com ingressos esgotados pela cantora Ivete Sangalo. E há também o funk carioca, que, por vezes marginalizado no Brasil, leva seus artistas em turnês pelas Américas e Europa.

Talvez esta seja uma nova era de navegação, em que o Brasil navega sem naus ou caravelas, trocando o oceano pela Web, e quem tem a se beneficiar com isso é o mundo todo, que pode, como antecipava Cazuza, aprender com o Brasil e o povo brasileiro, que pode ter seu talento reconhecido e divulgado, sem a desculpa da língua “difícil” que é o português.

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Sociolinguística e a copa do mundo.
Como ensinar o português brasileiro a estrangeiros?

O caráter social de uma língua se define nas relações humanas entre seus próprios falantes. Começamos a formular mensagens através de imitações e associações. A língua é suporte de uma dinâmica social que funciona como elemento de interação entre indivíduo e a sociedade na qual atua. Assim, a sociedade não seria sociedade se não tivéssemos a língua. A língua organiza a visão de mundo particular de cada povo ou comunidade. O sociolinguista tenta mostrar a variação da linguagem de um falante para outro, de forma positiva ou negativa. Marshall afirma que a comunicação é parte do próprio processo vital, e quem diz linguagem diz sociedade. Entramos, portanto, nas comparações e relações entre língua/cultura, língua/pensamento/realidade.

O maior problema encontrado para o estudo dessa teoria é a pesquisa em grandes áreas geográficas, como, por exemplo, estudar a variação linguística no centro de São Paulo. Há uma variedade enorme de pessoas, com culturas, classes sociais, religião, idade e sexo diferentes. É quase impossível pensar em tabelas e gráficos que possam distinguir, identificar e explicar o porquê das variações linguísticas dos falantes.

Para Bright, o objetivo da sociolinguística é comparar a estrutura linguística com a estrutura social. Para o autor, a diversidade linguística é a ferramenta principal para o estudo da sociolinguística. Ele a divide em três dimensões: emissor, receptor e situação ou contexto. Essas dimensões envolvem fatores extralinguísticos. A estrutura e o léxico funcionam como elementos representativos da variação social. Falante-ouvinte-situação. Para Gadet, essas variações extralinguísticas envolvem as variações regionais (geográficas), sociológicas e contextuais. Diz também que a linguagem é um princípio de classificação social. Entre outras teorias, todas acabam no mesmo problema: a contradição em grandes populações com grandes diversidades culturais, sociológicas, estilísticas, entre outros tantos fatores.

Como vimos nessa breve análise, os estudos sobre sociolinguística fazem uma abordagem bastante complexa sobre a sociedade. A nossa pergunta é: como ensinar o português, de forma eficaz e construtiva, trazendo todas as abordagens da sociolinguística? Isso seria quase utópico, mas a educação, felizmente, caminha para um futuro inovador no âmbito da construção de conhecimento através dos gêneros. Segundo Bakhtin, os gêneros são a forma como a língua se materializa, verbalmente ou não. Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo de atividade humana. Esses enunciados refletem condições específicas como: conteúdo temático, estilo de linguagem (seleção de recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua) e sua construção composicional.

A grande vantagem de usar diversos gêneros em aulas de português para estrangeiros é mostrar as variedades de linguagens e culturas brasileiras. O aluno terá um amplo conhecimento de como a sociedade se comporta e de como funciona a miscigenação de povos. É extremamente importante o uso da língua viva dentro das aulas, para que o aluno não depare com um português que existe apenas na escrita conforme a norma padrão.

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